5 gráficos para conhecer melhor o cinema português

Quais os filmes portugueses mais vistos de sempre no cinema? Qual a sua classificação no IMDB? Há cinema em Portugal sem financiamento público? Respondemos a estas e outras perguntas sobre cinema nacional.

Por Rute Correia|@RuteRadio|

Que 2020 e 2021 foram os piores anos de sempre para o cinema, não há dúvidas. As salas fechadas meses a fio estreitaram ainda mais uma relação que, não sendo a mais problemática, também não era a mais chegada. Em média, cada pessoa em Portugal vai ao cinema menos de duas vezes por ano. Não será necessariamente por falta de interesse, mas antes por falta de oportunidade. Nos últimos cinco anos, cerca de 200 concelhos não tiveram qualquer sessão de cinema, nem houve grande evolução neste indicador. Os dados do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) indicam que, de 2004 a 2020, este número oscilou entre o mínimo de 185 (2008) e o máximo de 218 (2004) concelhos sem sessões.

Antes da pandemia, já outras crises tinham assolado o setor. Na década passada, o impacto de sucessivos Programas de Estabilidade e Crescimento e do consequente resgate do FMI sentiu-se nas salas esvaziadas. Entre 2010 e 2014, as salas de cinema portuguesas perderam quase cinco milhões de espectadores. Apesar da chegada da plataforma de streaming Netflix a Portugal nesse ano, 2015 marcou uma viragem positiva, devolvendo mais de dois milhões de espectadores às salas de cinema. “Minions” foi a película mais vista nesse ano, com 937795 espectadores, quase o triplo do filme mais visto no ano anterior. A recuperação prosseguiu de forma notória: entre 2015 e 2019, o número de espectadores nos cinemas nacionais nunca baixou dos 14 milhões, mas a média diminuiu ligeiramente face ao período pré-Troika e os máximos continuam por bater.

O regresso dos portugueses ao cinema fez-se a par com uma mudança ligeira nos filmes estreados por cá, sobretudo no que diz respeito à quantidade. Entre 2015 e 2019, o número de filmes que chegaram às salas aumentou face aos dez anos anteriores (exceção feita a 2020, naturalmente, visto que os cinemas estiveram fechados vários meses). Regra geral, a produção norte-americana domina, tendo atingido o pico em 2009, ano em que representou 50% das estreias, mas a produção europeia parece ter ganho algum fulgor nos cinemas nacionais. Desde 2012, inclusive, pelo menos um em cada três filmes que chegam ao circuito comercial é produzido por um país europeu e, nos últimos dois anos, o número de filmes europeus nos cinemas nacionais ultrapassou o de norte-americanos.

No entanto, a proporção de espectadores em cada uma destas fatias não só não reflete estas alterações, como a tendência segue em sentido oposto. Entre 2010 e 2019, os filmes norte-americanos seguraram, em média, 75% dos espectadores nacionais. Ou seja, por cada quatro pessoas que foram ao cinema em Portugal, três escolheram ver produções dos EUA. Quanto aos filmes portugueses, a assistência flutuou entre um mínimo de 0,5% do total, em 2011, até ao máximo de 6%, em 2015. Nesse ano, estreou a recriação de “O Pátio das Cantigas” por Leonel Vieira.

A vaga de versões de clássicos do cinema português foi particularmente popular. “O Pátio das Cantigas” (2015), “O Leão da Estrela (2015)” e “A Canção de Lisboa” (2016) estão todos na lista dos 20 filmes portugueses mais vistos de sempre, acumulando cerca de um milhão de espectadores e uma receita bruta de quase 5 milhões de euros. “O Pátio das Cantigas” (2015) foi o filme português mais visto de sempre, com mais de 600 mil espectadores. É o único filme português a ultrapassar a marca do meio milhão de espectadores e, também, o único a figurar na lista dos 40 filmes mais vistos em Portugal nos últimos 15 anos.

Apesar da popularidade extraordinária, com uma classificação de apenas 5,6 no IMDB, o filme parece não ter agradado aos mais cinéfilos. Porém, na lista dos cem filmes portugueses mais vistos no cinema, está longe de ser o pior – esse título cabe a “Morangos Com Açúcar – O Filme” (2012). A versão cinematográfica da telenovela juvenil ocupa a décima primeira posição, com 238323 espectadores, mas tem uma avaliação de apenas 3,1, integrando o reduzido conjunto de catorze filmes cuja classificação se situa abaixo de 5.

A distribuição da classificação deste lote de cem filmes no IMDB é normal, com uma ligeira tendência para notas mais altas do que mais baixas: a média é de 6,1 e a mediana é de 6,3. A larga maioria dos filmes (70%) tem uma classificação acima de 6, sendo que 18% estão acima de 7. Destes cem mais vistos, o filme com a melhor classificação é “A Comédia de Deus” (1995), de João César Monteiro, que conseguiu 7,5; a película está na nonagésima posição no que respeita ao número de espectadores, com 30280. Ja na avaliação no IMDB, é seguido de perto por “Manhã Submersa”(1980), “Vale Abraão”(1993) e “Alice” (2005), que tiveram 7,4.

Cinco realizadores assinam um terço (33%) das películas e apenas dezanove contam três ou mais filmes na lista, o que denota a dificuldade de manter uma carreira viável na realização cinematográfica em Portugal. É, ainda, de salientar a existência de apenas cinco realizadoras nesta contagem: Ana Luísa Guimarães, Ana Rocha de Sousa, Maria de Medeiros, Patrícia Sequeira e Valeria Sarmiento assinam um total de seis filmes, com uma classificação média de 6,6 – meio ponto percentual acima da média total.

Nesta lista, o cinema dirigido por mulheres só se faz mostrar a partir dos anos 90. Nessa década, surgem duas realizadoras: Ana Luísa Guimarães prosseguiu com a sua carreira na indústria audiovisual na direção de atores; Maria de Medeiros continuou o seu percurso na realização com vários documentários e não mais com produtoras portuguesas. A maior parte do seu trabalho cinematográfico continua a ser na interpretação, onde coleciona mais de uma centena de créditos. É só já neste século, e especificamente na última década de análise, que as realizadoras portuguesas parecem ganhar algum destaque.

No resto da Europa, o desequilíbrio de género na realização cinematográfica é notório, embora longe de ser tão acentuado. Segundo o Observatório Europeu do Audiovisual (OEA), entre 2015 e 2018, as mulheres representavam 22% dos profissionais de realização de longa-metragens na Europa. No entanto, esta representação não é a mesma nas várias tipologias de filmes. Assim, surgem mais representadas no cinema documental (sendo cerca de 28% do total de realizadores deste género); por oposição, na ficção e na animação contabilizam apenas 17% do total.[1]

Patrícia Sequeira é a única mulher com mais do que um filme na lista. A realizadora chega à sétima arte já com um longo currículo de direção de ficção, passado, sobretudo, ao leme de séries e telenovelas nacionais – “Conta-me Como Foi” (RTP), “Doce Fugitiva”(TVI) e “Laços de Sangue” (SIC) foram alguns dos programas em que se destacou. Sequeira realizou, desde 2016, três longas-metragens e distingue-se por só ter tido apoio do ICA numa delas, “Snu” (2018). Este número é excecional, na medida em que a vasta maioria dos filmes nacionais tem o apoio do instituto.

O investimento público através do ICA é o maior motor da produção cinematográfica nacional. Entre 2004 e 2020, o organismo financiou mais de metade das longas-metragens em Portugal. Os limites dos montantes financiados variam consoante a tipologia dos filmes apresentados, podendo ir de 90 mil euros (primeiro documentário longo) até aos 600 mil euros (longa-metragem de realizador consagrado - com mais de duas longas-metragens produzidas). Desde 2018, o ICA promove ainda um programa de reembolso de até 30% de custos de produção suportados em Portugal.

A dependência de investimento público que o cinema apresenta não é um exclusivo nacional. Um estudo publicado em 2019, pelo OEA, indica que 93% dos filmes europeus recebeu alguma forma de financiamento público direto, num total de 474 milhões de euros (26% do orçamento total de produção).[2] No entanto, no caso dos mercados pequenos (até 10 milhões de pessoas), todos os filmes analisados tinham recebido financiamento público. A grande diferença está na fonte primordial desse investimento. Alguns países usam taxas ou impostos específicos para financiarem o setor, outros, como é o caso de Portugal, atribuem essa responsabilidade a um organismo central. Entre 2010 e 2014, Portugal foi o país da UE que mais colocou o ónus destas contribuições na administração central. E para quem julgue que o cinema é uma atividade particularmente rentável noutras paragens, dos 27 estados-membros, apenas na República Checa, França e Países Baixos o cinema produzido consegue gerar receitas próprias (direitos de autor e outros) acima dos 10% do total da receita.

Portugal é, no entanto, dos países europeus cuja balança comercial do audiovisual está mais desequilibrada. Além de cinema, o valor inclui outros tipos de conteúdo, como televisão ou videojogos. Em termos proporcionais, surge empatado com o Luxemburgo, com as importações a representarem cerca de 86% da balança. Pior só mesmo Malta, que praticamente não exporta quaisquer conteúdos deste tipo.

Em setembro deste ano, o secretário de Estado do Cinema, Audiovisual e Media, Nuno Artur Silva, avançou que em 2022 o financiamento do setor iria aumentar em 10 milhões de euros. Citado pela Agência Lusa, afirmou que este montante resulta da soma da “transposição da diretiva [europeia do audiovisual] com as obrigações novas da RTP do contrato de concessão e com aquilo que será o novo plano estratégico do cinema e audiovisual, mais o prolongamento do Fundo do Turismo [e do Cinema] com o seu «cash rebate»”. Com efeito, a disparidade entre importações e exportações talvez peça mais estratégia do que apenas investimento.

Notas Metodológicas

Trabalhámos com os dados disponibilizados pelo ICA e pelo IMDB. Os dados foram recolhidos em novembro de 2021.